Polícia: Blitz de trânsito termina com morte de adolescente

 

Conscientizar motoristas e policiais pode ser uma alternativa para mudar as estatísticas

 

 

Por: Di Anna Lourenço
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Alanna Rayssa Nunes teve a vida atropelada pela ignorância Foto: Arquivo online – facebook

 

Cabelos longos, lisos e negros. Semblante alegre e sorridente. Sempre de bem com a vida e vaidosa. Muito amorosa com os pais. Buscava cultivar as amizades. Com apenas 13 anos, já tinha 2018 amigos no facebook. Tinha paixão por violão. Era fã de Marília Mendonça e Rosa de Saron. Gostava, como muitas meninas da idade dela, da banda teen One Direction. Estudiosa, concluiria em breve o Ensino Fundamental. Mas, na terça-feira (6), Alanna Rayssa Nunes fez sua última postagem nas redes sociais. Estava animada, pois iria a uma festa. Porém, no meio do caminho, uma ação policial interrompeu seu plano e acabou com todos os sonhos e expectativas.

Alanna Rayssa, como toda adolescente, gostava muito de comemorações. Aguardava ansiosamente a terça-feira (6). Como naquele dia não tinha aula, ela passou o tempo inteiro pensando na hora de ir comemorar o aniversário de uma amiga. Pronta para a festa, por volta das 21h, Alanna Rayssa pegou carona na moto do primo Mateus Nunes. Mas, poucos minutos após saírem de casa, ela e o primo se depararam com uma blitz de trânsito. Não se tratava de uma operação de rotina feita em conjunto por agentes do Detran e Polícia Militar, pois na cidade as leis de trânsito não são tão exigidas.  No entanto, como é muito comum entre a maioria dos usuários de moto nas cidades do interior, os dois estavam sem capacete e, também, a moto não tinha os retrovisores. Instintivamente, pretendendo evitar aborrecimentos e se ver livre da blitz, ao ver o bloqueio, Mateus deu meia volta e pegou a contramão. Neste momento, os PMs, que estavam também de moto, começaram a perseguir os jovens.

Quem presenciou a perseguição afirma ter visto um dos policiais meter o pé na moto do garoto. No meio da tentativa de fuga do local, Mateus perdeu o controle da direção e acabou por trombar com o veículo da PM. Alanna Rayssa caiu e quebrou o pescoço. Mateus ficou desesperado, queria socorrer a prima, mas mesmo aos gritos ele foi colocado dentro da viatura policial. O SAMU chegou a ser acionado, mas todas as tentativas dos agentes não foram suficientes para evitar a morte de Alanna Rayssa.

A morte de Alanna Rayssa causou muita comoção. A administração municipal chegou a cancelar os desfiles das escolas e fanfarras em alusão ao 7 de setembro. As circunstâncias da morte era o único assunto do dia seguinte. Várias pessoas, inclusive colegas e amigos da jovem, fizeram protestos em frente ao DETRAM, pediam justiça e apuração do caso. No velório da jovem era nítida a revolta. O pai e a mãe estavam inconsoláveis com a morte da única filha.

No entanto, acontecimentos como este no trânsito se parecem com muitas histórias vividas e contadas diariamente nas páginas policiais dos jornais de muitas cidades brasileiras. E sempre as mesmas perguntas são repetidas nas rodas de conversa _ Será que o desfecho não poderia ter sido diferente? Hoje foi Alanna Rayssa, mas quantas outras crianças precisarão morrer para tomarem alguma providência efetiva? Os jovens ou a PM, quem errou? Deve a polícia perseguir os adolescentes ou trabalhadores da mesma forma que usa fazer quando se está no encalço de bandidos? Os PMs são preparados para lhe dar com pessoas de bem que, por ignorância ou imprudência, comentem infrações leves ou inconsequentes? Pode um policial tentar contra a vida de quem quer que seja para fazer cumprir uma blitz? O que leva os jovens a querer fugir da blitz, andarem de moto sem capacete, sem documentação e com o veículo sem os itens obrigatórios para a condução segura? Pais que permitem jovens ou crianças serem transportados sem os devidos itens de segurança não assumem o risco por eventual morte que seus filhos venham a causar ou sofrer? Especialistas em trânsito são unanimes em afirmar que é importante refletir sobre as leis de trânsito e essencial adotar atitudes conscientes para ajudar a mudar as estatísticas de acidentes e mortes.

Apuração dos Fatos e desafios

O delegado abriu inquérito para apurar as circunstâncias do acidente. Os primeiros a serem ouvidos foram os PMs. O coronel Oliveira afirmou à imprensa que só baseado nos relatos não é possível concluir se a fatalidade foi acidente ou decorrente da ação policial. Então era preciso aguardara conclusão das apurações da Polícia Civil. No entanto, fez questão de frisar que a PM tem o dever de preservar a vida, não só das pessoas de bem, como também das pessoas que estão presas ou sobre custódia do estado. Acrescentou que, se caso ficar comprovada a ação do PM, o mesmo sofrerá as sanções disciplinares para este tipo de conduta.

Desrespeito à lei e imprudência

No município, o caso de Alanna Rayssa não é o primeiro e nem uma ocorrência isolada. Apesar da fala enérgica do coronel, outros motociclistas relatam terem passado por situação semelhante, quanto à atuação dos PMs durante blitz. O último caso tinha sido registrado na semana passada, quando um rapaz sofreu fratura nas duas pernas após a equipe da PM ter se aproximado e socado o pé em sua moto para fazê-lo parar. Aqui, o desfile de imprudência dos condutores no trânsito é diário, basta ficar observando a movimentação nas avenidas, em poucos minutos é possível ver jovens e famílias inteiras, inclusive com crianças de colo, trafegando sem utilizar capacetes.

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