No (des)concerto das nações, a originalidade do Brasil

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por Flávio Aguiar, para o RBA

É notório que a desconcertação de direitos do povo trabalhador e arredores campeia pelo mundo.

Nos Estados Unidos, Donald Trump quer destruir o paradigma legal montado por Barack Obama em torno do sistema de saúde (isto vai merecer artigo em próxima edição), além de prejudicar os pobres e favorecer os ricos de várias outras maneiras. Não sei como houve gente que se diz de esquerda no Brasil que saudou sua vitória contra Hillary Clinton – não que ela fosse alguém a defender, à direita que estava de Obama, que já estava muito mais à direita do que prometera ser.

Na Europa, só há dois governos à esquerda, no momento. Portugal, com a “geringonça” (assim é chamada a coalizão do atual governo português, reunindo socialistas, comunistas, nova esquerda e verdes) e, é claro, o Vaticano, com o Papa Francisco I à frente. O restante, do extrema-direita Viktor Orban na Hungria, passando pela Polônia, até o neo-não-sabe-bem-o-quê Emanuel Macron na França, tende à direita. Neste quadro, Angela Merkel, a conservadora chanceler da Alemanha, emerge como uma política séria, de quem se conhece o que quer etc. Mas de direita, também.

Enfim, o assalto aos direitos dos trabalhadores campeia mundialmente. Na Argentina, na África, na Ásia…

É, mas o Brasil, que enveredou por este campo desde o golpe tramado a partir de 2013 e desfechado em 2016, tem uma grande originalidade.

É o único país em que este assalto aos direitos do povo é capitaneado por um presidente acusado de toda e qualquer sorte de corrupção, e liderado – e liberado – por um Congresso igualmente com enorme número de membros acusados de tudo o que se pode imaginar em termos de malfeitos legais (e alguns ilegais). E também assistido por um Supremo Tribunal Federal completamente pusilânime diante das agressões à Constituição que deveria defender.

Assistimos a vergonhosas sessões do Congresso em que foram espezinhados não só direitos elementares, como a famosa sessão da Câmara de Deputados de abril do ano passado, como também foram espezinhadas regras mínimas do decoro parlamentar.

Assistimos traições vergonhosas a seus eleitores, como as de Marta Suplicy e Cristovam Buarque votando a favor da espúria “reforma” da legislação trabalhista. Sem falar na traição do próprio Temer, que continua a alardear que “nunca alguém fez tão bem ao Brasil nos últimos 20 anos”, ou algo assim, enquanto vagava, como uma alma penada sem rumo, entre seus “colegas” mandatários no G-20, em Hamburgo.

Graças a isto, o Brasil inteiro tornou-se um fantasma desconsiderado na diplomacia internacional, a não ser pelo estilo pitbull do seu chanceler (Aloyzio Nunes), que quer morder o pescoço do governo venezuelano, não se sabe muito bem o porquê, pois paixão pela democracia é que não é.

Veio-me à lembrança o começo da letra de canção de Eduardo das Neves – grande palhaço cantor do fim do 19 e começo do século 20: “A Europa curvou-se ante o Brasil”…

É, mas o herói desta frase da canção era Santos Dummont, que em 19 de outubro de 1901 contornara, em balão dirigível, a Torre Eiffel, em voo que durara, conforme a exigência da Sociedade Científica Francesa, menos de 30 minutos.

Já os personagens de hoje são outros. E sobretudo, jamais ficarão no imaginário pátrio, como heróis. Merecerão a comenda “Joaquim Silvério dos Reis”.

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