Belchior, um compositor cinematográfico

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Por Luca Gebara

Eu posso afirmar com todas as palavras da minha boca e toda a certeza que carrego no peito que jamais ouvirei um compositor como o Belchior. Sua música é ímpar por essência e não é somente intimista em demasia, mas cinematográfica. E o que é mais bonito na sua forma de compor e de cantar, é que a sua simplicidade é literal e transcende a sutileza metafórica que a música exige. Não há um esforço tremendo para utilizar-se de metáforas complexas. Ele é o que canta, ele vive o que é. Me refiro no presente, propositalmente. E eu nunca o conheci pra afirmar com convicção isso, quiçá conheço seu estilo de vida e nem mesmo é uma exaltação pessoal (o próprio diz: “eu sou como você” constantemente em uma de suas canções, e sempre enfatizou a sua humanização); mas há tanta história e sinceridade nas suas letras, que nem o mais desconfiado dos céticos (ou o mais cético dos desconfiados) iria suspeitar da pureza que elas carregam. A alma tá ali.

“Eu sou como você, que me ouve agora” – Sempre que ouço algum CD do Belchior fico visualmente deslumbrado; e eu não estou me referindo a um sentido tão figurado da coisa, eu realmente consigo imaginar histórias, como se estivesse estruturando um filme na minha cabeça. As letras têm um poder de me transportar não somente a uma experiência sonora, mas visual. É muita história, e ela é traçada como se houvesse um roteiro definido (que em alguns momentos até mesmo a jornada do herói é perceptível). É mágico, mas não é explícito. Jamais senti isso de forma tão cristalina quanto sinto ao ouvir as suas músicas. Eu posso sentir até mesmo os enquadramentos, os movimentos em sintonia com os acordes e a cadência de cada música. Acredito que por isso sempre senti um afago diferente no coração quando ouço a sua voz. Ela transmite uma daquelas sensações que são inexplicáveis para pôr em palavras.

    Voltando à esse pequeno trecho de “Fotografia 3X4“, no qual Belchior claramente traz para a música um elemento do teatro e do cinema, conhecido como a quebra da quarta parede, onde o personagem dialoga ou se refere ao público, deixando claro que o filme em si, ou a peça, não passam de ilusão; quebrando a ideia de que o personagem não tem ciência de que vive em um filme. E é aí que eu paro pra analisar todas as outras músicas do compositor e percebo que são roteiros de uma vida. É perceptível a sua ligação com o cinema, mesmo em momentos mais sutis. Ele traz elementos das milongas argentinas no violão e na cadência melodramática de compor (que já se relacionam com movimentos cinematográficos há anos), mas também é essencialmente regional, nordestino e autoral na maneira mais leve e arrastada de cantar. Eu só consigo pensar na beleza e na carga monstruosa de sensações que sinto. Todas as suas melodias me remetem à sala escura do cinema.

   Se um dia eu tiver filhos, vou querer mostrar Belchior a eles e falar pra nunca perderem o poder da imaginação, de trabalhar os sentidos; saber ver pelos ouvidos, pelo cheiro e perceber que há muito mais do que o som na música. Belchior nos mostra empiricamente a genialidade disso.

  Qualquer um que tenha saído de casa cedo e ido morar em outra cidade sente um aconchego no peito quando ouve suas músicas, que falam tanto da dificuldade de largar sua terra e suas raízes para ir viver na cidade grande. Sempre me sinto mais confortável e forte quando ouço Belchior, pois lembro que jamais estarei sozinho, apesar da solitude.

Bem como diz meu velho: “Solitário, mas não sozinho”.

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