Um século da revolução russa: o capitalismo sobreviverá à sua ‘vitória’?

O mundo emergente da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS não está melhor do que antes: em muitos aspectos parece ter regredido ao período que antecedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial

Marcha em Moscou comemora aniversário de 100 anos da Revolução Russa. Comunismo "perdeu" Guerra Fria, mas mundo ficou pior sob o capitalismo

Marcha em Moscou comemora aniversário de 100 anos da Revolução Russa. Comunismo “perdeu” Guerra Fria, mas mundo ficou pior sob o capitalismo

RBA

A vida é bela. Que as gerações futuras
a limpem de todo o mal, de toda a opressão,
de toda a violência, e possam goza-la plenamente” – Leon Trotsky

Na noite de 7 de novembro de 1917, 25 de outubro pelo Calendário Juliano, um dos canhões do cruzador Aurora, então ancorado nas margens do Rio Neva, em Petrogrado – hoje São Petersburgo, depois de ter sido Leningrado –, disparou um tiro de pólvora seca. Foi o sinal para que os revolucionários tomassem de assalto o Palácio de Inverno na cidade, que fora dos czares russos e era então a sede do governo instalado naquele ano. A tomada se concretizou às duas horas da madrugada do dia seguinte, 26 de outubro, 8 de novembro no Calendário Gregoriano, e assim começou, cem anos atrás, a segunda fase da Revolução Russa, que criaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, hoje extinta.

A Revolução Soviética e a consolidação posterior do regime comunista lembram o cascudo, aquele besouro que aparentemente não poderia voar, mas que no entanto voa. Ninguém esperava que uma revolução comunista, que deveria ser mundial, começasse num país “atrasado”, entre aspas, como a Rússia. Ao contrário, esperava-se que este movimento tivesse seu berço e fulcro nos países de ponta do capitalismo industrializado, como a Alemanha, a França, a Inglaterra ou até mesmo os Estados Unidos, país que então tinha um movimento operário amplo e vigoroso.

Assim, a primeira revolução comunista do mundo surpreendeu até mesmo a teoria marxista que a sustentava, bem como a subsequente revolução comunista na China, ao fim da Segunda Guerra, e a cubana, já em plena Guerra Fria. Naquela época outra revolução que sacudia o mundo – embora não fosse comunista – acontecia não nos Estados Unidos, mas no também “atrasado” México, na América Latina.

Se havia uma teoria marxista que sustentava a análise crítica do capitalismo, em termos de governo tudo teve de ser mais ou menos improvisado, esta é a verdade. Os comunistas pregavam, no limite, o fim do Estado, mas tiveram de organizar e consolidar um, poderoso o suficiente para se defenderem dos ataques que sofreram, da guerra civil contra os chamados “russos brancos” e o apoio internacional que estes tiveram.

Isto pode ajudar a entender algumas das vicissitudes trágicas que se seguiram. O testamento político de Lênin previa a destituição de Stalin e a indicação de Trotsky como seu sucessor. Mas segundo a biografia deste, escrita por Isaac Deutscher, o notável comandante do Exército Vermelho subestimou a capacidade do rival para dominar a máquina burocrática do Partido e do Estado, e ele mesmo terminou sucumbindo diante do seu poder. O mesmo aconteceu com grande parte da vanguarda revolucionária de 1917 e dos anos subsequentes.

Hoje, diante do capitalismo triunfante até mesmo na China que ainda se proclama comunista, mas não é mais, há quem afirme que a Revolução Soviética foi um fracasso histórico. Mas é necessário, no mínimo, relativizar esta afirmação.

Olhando-se o plano geopolítico, deve-se pôr no seu saldo positivo a derrota do nazi-fascismo, por exemplo. Também neste plano deve-se por o fato de que, com todas as suas contradições, a presença do regime soviético “do outro lado do muro”, para usar uma expressão berlinense, contribuiu em certos momentos para dar uma face mais humana ao capitalismo, através, por exemplo, do New Deal nos Estados Unidos, ou da social-democracia na Europa pós-Segunda Guerra.

Talvez o nó górdio que os regimes comunistas não conseguiram cortar foi o de se acostumarem com a falta de democracia em tudo: no governo, na burocracia, nas instituições, no Partido. Eles não foram derrotados de fora para dentro, mas de dentro para fora, numa espécie de autofagia destrutiva.

No que toca o regime soviético, há teorias que dizem ter sido o Exército Vermelho o maior responsável pela sua longevidade, e não o Partido. Quando o Exército Vermelho saiu do Afeganistão, no começo de 1989, derrotado, desgastado, desmoralizado, depois de uma guerra de dez anos que exauriu as suas forças militar e politicamente, o regime soviético começou a entrar em colapso, o que se concretizou quase três anos depois, ao final de 1991.

Deste fracasso, depois de muitos anos de turbulência, o que emergiu, em vez do “homo sovieticus”, generoso, solidário, revolucionário, foi o reino de oligarquias e máfias ferozes, e o neo-czariato de Vladmir Putin para disciplina-las. Entretanto isto não implica o desaparecimento dos melhores ideais de 17.

Os países que compunham o Pacto de Varsóvia, na maioria, se debatem hoje entre políticos de direita e de extrema-direita. A Iugoslávia, que não aderiu ao Pacto, se desfez em meio a guerras nacionalistas e movidas por diferentes formas de xenofobia. A Albânia, que deixou o Pacto em 1968, aliou-se primeiro à China mas acabou aderindo à Otan.

O mundo emergente da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS não está melhor do que antes: em muitos aspectos parece ter regredido ao período que antecedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. E até mesmo o fantasma de um apocalipse nuclear voltou a ronda-lo. A União Europeia e a Zona do Euro, que prometiam a pacificação durável da Europa de tantas guerras, está recriando seu próprio “Terceiro Mundo” às margens do Mediterrâneo, enquanto forças neo-nazis, que pareciam sepultadas, ressurgem das próprias cinzas e disputam espaço nos parlamentos.

Hoje, com o comunismo praticamente desaparecido da face da Terra, reduzido quase ao status de “reservas ecológicas” em Cuba e na Coreia do Norte, o que se viu e se vê é a capitulação, em grande parte, da social-democracia ao neo-liberalismo e à orgia capitalista promovida pelos seus agentes mais reacionários, nos Estados Unidos e na América Latina.

Cem anos depois da Revolução Soviética, a pergunta mais contundente não é se ela e seus ideias foram um fracasso, mas sim se o capitalismo, hoje envolto numa das mais brutais concentrações de renda da história, e também engolfado pelas águas turvas de coisas como Panamá e Paradise Papers, vai sobreviver à sua vitória na Guerra Fria.

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