Sobre a depressão

depressão

Elaine Tavares, Palavras Insurgentes

Então, de repente, começa a aparecer nas redes sociais uma postagem sobre depressão. Uma novidade que vai acabar com o problema. Esse é um tema que me toca, fui lá ver. Diz o texto que o número de pessoas diagnosticadas com depressão no Brasil cresceu 61% nos últimos dez anos, passando de 5,5% da população em 2006 para 8,9% em 2016. A taxa brasileira é a maior em toda a América Latina e a segunda nas três Américas, ficando os Estados Unidos em primeiro lugar. No mundo todo a taxa é de 4,4%.

A considerar esses números da tal pesquisa, o Brasil teria 17 milhões e 800 mil pessoas sofrendo de depressão. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o campeão mundial em ansiedade, tendo 9,3% sofrendo com esse problema, o que dá um total de quase 19 milhões. Juntando os dois dramas, depressão e ansiedade, temos cerca de 37 milhões de almas afetadas. Ainda segundo a OMC, em 2015, 788 mil pessoas morreram por suicídio. Isso representou quase 1,5% de todas as mortes no mundo, figurando entre as 20 maiores causas de morte em 2015. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda maior causa de morte em 2015.

Deveras, os números são estarrecedores. E os índices aparecem em todo o mundo, sendo a menor taxa a de 2,9%, numa pequena ilha da Oceania.

Segundo pesquisas médicas a depressão é de fato uma doença causada pela deficiência ou mau funcionamento de um neurotransmissor chamado serotonina. Esse neurotransmissor tem várias funções dentro das pessoas, muitas delas ainda não descobertas. É a serotonina que mantém o cérebro em vigília, que regula o humor, que equilibra a saciedade e o desejo sexual, regula a temperatura corporal, sensibilidade à dor, e muitas coisas mais.

Assim, a solução para esse problema passa a ser óbvia: remédio! E é por aí que atua a indústria farmacêutica, empurrando toda a sorte de medicamentos que regulam e reequilibram a tal da serotonina já que sem ela ficamos de mau humor, perdemos o interesse na vida, comemos sem parar ou não comemos, e não dormimos.

Cá comigo fico pensando que se há um neurotransmissor dentro de nós que se desequilibra, esse desequilíbrio não acontece por mágica. Ele é provocado. E o agente provocador tem um nome: capitalismo.

Alguém pode dizer: ah, lá vêm esses esquerdopatas com essas teorias mirabolantes sobre as maldades do capital. Tudo bem. Mas, vamos pensar. Como alguém que não tem emprego, ou que perdeu a aposentadoria, ou que ganha mal e não consegue reproduzir a vida, que tem de enfrentar cinco horas no trânsito para chegar ao trabalho, que é vigiado pelos feitores, que não tem moradia, que vive afogado no medo, que não consegue estudar, que não tem lazer, que mal pode ver os filhos porque trabalha demais, que não consegue cuidar dos pais e outras tantas dores mais, pode não se deprimir? Como não viver em estado de ansiedade se o Datena diz todos os dias que vivemos num mundo de terror? Como não viver em sobressalto se não há esperança de presente, nem de futuro? Como não desequilibrar a serotonina se o alimento que se come não é mais natural, está impregnado de veneno e de outros químicos?

A vida que o capitalismo nos apresenta como a vida moderna não é a melhor vida. Pelo menos não para os trabalhadores. Pode ser para o 1% que vive do trabalho dos demais. Mas, para os 99% não é boa não. Ah, mas eu tenho celular, tablete, computador, TV de LED, tenho acesso a tudo de bom que o capitalismo criou. Pode ser, mas a que preço? O trabalho te rouba vida, as tecnologias te roubam vida, os alimentos processados te roubam vida, a falta de contato humano comunitário te rouba vida, tudo isso desequilibra teu corpo, tua mente, teu ser inteiro. Alguém pode dizer que em Cuba também tem depressão e lá não tem capitalismo. É verdade. Não tem capitalismo, mas a ilha vive atacada pelo capitalismo há 60 anos, então, sofre os efeitos também.

A depressão e a ansiedade, que tomam conta da alma de quase 40 milhões de brasileiros, são males típicos do capitalismo, é uma doença social. Disso não tenho dúvidas. E o capitalismo é tão “bonzinho” que é também capaz de criar os medicamentos que te façam ficar bem, de bom humor, de bem com a vida, mesmo vivendo nesse inferno. Dá-lhe ritalina, clonazepan, triptox5, e outras cositas más. Uma pílula e tudo fica bem, bora seguir arrastando a canga no trabalho, se acabando, e ainda assim chegar em casa sorridente, comer uma porção de transgênicos agrotoxicados e  prontos para uma boa transa. O mundo não é tão ruim, afinal. E se não tiver grana para um remedinho chique, tem a pinga, a cerveja, qualquer outra coisa que libere a tal da serotonina, essa malvada.

Alguns ainda orientam a equilibrar a serotonina com comida saudável. Um bom vinho, chocolate amargo, sementes, frutas. Mas, aos pobres, isso está inviabilizado. Comida tem de ser orgânica e o orgânico custa o olho da cara. Então, come-se o que tem no mercado mais barato. Não há escolhas. E se a liberdade escolher entre possibilidades concretas, não há liberdade.

A vida é uma batalha renhida no capitalismo. Batalha de morte. Não dá para amolecer. É certo que, às vezes, uma muletinha cai bem. Mas ela tem de ser pontual e cirúrgica. O que precisamos mesmo é garantir a nossa serotonina no braço, cortando a cabeça do capital, mudando o modo de organizar a vida. Nada de amortecer a dor e ficar no sofá vendo a Globo. Há que treinar o corpo, fortalecer os músculos, afinar a pontaria, estar pronto para a peleia. Porque ela é cotidiana.

Heráclito já mostrou lá atrás que a essência da vida é movimento. E é assim que enfrentamos. Movendo-nos, espreitando os inimigos, armando-lhes armadilhas, alertas, alertas.

A tristeza é coisa boa, nos faz ruminar. A ansiedade nos faz avançar. São sentimentos e sensações do humano. A depressão é doença social do capitalismo. Para ela acabar, temos de acabar com ele. E não há o que temer. Quando o capitalismo morrer e vier no seu lugar o comunismo, vai ser tão bom, tão solidário, tão comunitário, tão bonito, que nossa serotonina cantará e dançará dentro de nós, fazendo com que nossos corpos também possam celebrar a alegria e o prazer, vivendo numa sociedade de riquezas repartidas, sem propriedade privada e sem exploração.

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