Desalojados, moradores de ocupação aguardam ajuda em SP

Famílias inteiras estão vivendo na rua, mantidas por doações que chegam ao Largo do Paissandu

Mantimentos são organizados na porta da igreja e distribuídos para os desabrigados no Largo do Paissandu / Guilherme Henrique

Mantimentos são organizados na porta da igreja e distribuídos para os desabrigados no Largo do Paissandu / Guilherme Henrique

Brasil de Fato

A situação de incerteza sobre o futuro está estampado em cada rosto que ocupa um espaço em frente a Igreja Nossa Senhora dos Pretos, no centro de São Paulo. A igreja fica próxima ao prédio Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, no Largo do Paissandu, que desabou na madrugada da última segunda-feira (30).

De acordo com o Corpo de Bombeiros e o registro de movimentação do prédio, 146 famílias e 372 pessoas moravam no edifício. Esse número, no entanto, pode ser maior, já que a rotatividade do público era alta.

Ausência da prefeitura

Na quarta-feira (2), duas frentes de trabalho aconteciam simultaneamente no espaço interditado: enquanto o Corpo de Bombeiros apagava os últimos focos de incêndio que ainda restam nos escombros, centenas de pessoas recebiam doações e organizavam a distribuição para os desabrigados.

“A mobilização, formada pela sociedade civil, não teve participação do poder público”, afirmou Fagner Apolinário, que viveu na ocupação do prédio Wilton Paes durante os últimos seis meses.

Ele questionou o descaso dos poderes institucionais diante da tragédia ocorrida. “Senhor prefeito, deputado, governador e presidente, vocês vão precisar da gente, do nosso voto para se eleger. Mas, e agora? Cadê vocês aqui, para nos ajudar?”.

Durante todo o dia, pessoas ocuparam a frente da Igreja para guardar parte dos mantimentos e evitar que problemas de distribuição afetassem a organização do grupo.

O padre Reni Nogueira, responsável pela Igreja Nossa Senhora dos Pretos, comentou a importância de estar próximo da comunidade nesse momento. “A igreja é um apoio, assim como o grupo de voluntários que está aqui também. São diversas religiões, credos, que estão convivendo de maneira fraterna. Nos tornamos um ponto de apoio para guardar, montar os kits e depois distribuir para as vítimas desse desastre”

A vereadora do PSOL, Sâmia Bonfim, chegou a Igreja por volta das nove horas da manhã. Para ela, é preciso desfazer o discurso da mídia hegemônica em relação à luta por moradia popular.

“É importante, através das mídias alternativas, das nossas próprias redes sociais, desfazer esse discurso da mídia hegemônica, de que aqui só tem bandido. O ex-prefeito João Dória afirmou que essas pessoas formam uma facção criminosa… São trabalhadores e honestos. Garis, empregadas domésticas, pedreiros, que querem uma moradia e teto digno. É importante que todos venham conhecer e divulguem as informações corretas”, salientou.

O capitão Leandro Da Hora, do Corpo de Bombeiros, informou que o prédio em frente ao que desabou também está sendo monitorado pela corporação. Ele explicou que medidores estão verificando correntes de gás no ambiente para conter possíveis explosões.

Os trabalhos de busca devem durar uma semana no local. Cães farejadores serão utilizados, após a retirada dos entulhos.

Na home-page oficial, a Prefeitura de São Paulo alega que disponibilizou abrigos para os desalojados. A oferta, no entanto, teria sido recusada pelos antigos moradores do prédio, pela falta de autonomia. “No albergue você toma um banho, come uma comida digna, mas não dá para dizer que você tem uma casa, um espaço para chamar de seu. Você não tem uma casa? Eu também quero ter a minha”, indagou Fagner.

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