‘Na política, sofremos mais preconceito’, afirmam mulheres sobre misoginia no Brasil

A posição de evidência ocupada por essas mulheres na política tende a movimentar ainda mais a engrenagem do machismo

Durante sessão da Câmara Federal em 2016, mulheres protestam contra manobras de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), então presidente da Casa / Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Durante sessão da Câmara Federal em 2016, mulheres protestam contra manobras de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), então presidente da Casa / Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Brasil de Fato

Nas diferentes esferas de atuação, as mulheres compartilham experiências de opressão. E, se o espaço, então, corresponde aos ambientes da política, tais experiências podem ser ainda mais recorrentes.

É o que dizem aquelas que atuam, por exemplo, no parlamento. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que tem vida política desde a adolescência, quando se engajou em grêmios estudantis, aponta que, diante da predominância masculina, há grande resistência em aceitar a presença delas nos espaços de poder.

Ao longo da trajetória de décadas de atuação, a senadora já vivenciou diferentes situações de opressão. E, por vezes, o preconceito e os ataques podem estar escondidos numa nuance do discurso.

Durante o julgamento final do golpe que depôs a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, por exemplo, ela e outras parlamentares foram chamadas de “meninas” pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PR), em meio ao calor dos debates da sessão. A petista destaca que é de praxe os homens se incomodarem com a atuação das mulheres no parlamento e, diante disso, lançarem mão de ofensas.

“Eles consideram que a mulher não está preparada pra assumir cargos públicos, por isso as depreciações, as formas de ofensa”, diz a senadora Gleisi Hoffmann.

E o preconceito também se revela nos demais espaços onde a atuação da senadora repercute, como, por exemplo, na internet. Esta semana, Hoffmann obteve uma vitória na Justiça após mover ação contra um blogueiro que a havia ofendido com base em conteúdos misóginos.

Essa foi a quinta decisão judicial favorável que a senadora obteve somente este mês contra agressores com discurso considerado machista.

No intervalo entre dezembro de 2017 e maio deste ano, a petista moveu mais de 20 ações judiciais relacionadas a casos como esse.

“Todas as vezes em que vejo matérias, avaliações, comentários que sejam depreciativos em relação a minha condição feminina, entro com ação, porque acho que não estou fazendo só por mim, e sim pelo conjunto das mulheres brasileiras, que têm que ser respeitadas”, afirma a senadora Gleisi Hoffmann.

As ofensas se agravaram no contexto de avanço conservador no país, após o golpe de 2016, e especialmente depois que Hoffmann assumiu a presidência do Partido dos Trabalhadores (PT), no ano passado.

A proliferação da cultura do ódio seria, na avaliação do advogado que acompanha os casos da senadora, Eugênio Aragão, um dos motivos pelos quais o Judiciário tem reconhecido as ofensas e se mostrado receptivo às ações.

“Acredito que há uma sensibilidade até por conta desse ambiente de extrema hostilidade que tem se implantado no país. O discurso tem sido muito baixo, e acredito que Judiciário esteja um pouco sensível a isso”, complementa.

A experiência da senadora é uma realidade vivida por outras parlamentares de destaque, como é o caso da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), que já foi vítima de agressões provocadas, em sua maioria, por políticos e seguidores de extrema-direita.

Ela destaca que a trajetória na política foi sempre marcada pela resistência diante do machismo multifacetado que se revela nos diferentes espaços e que, para isso, contou sobremaneira com a sororidade – termo utilizado para designar a união entre as mulheres.

“Ao longo do tempo, passei por diferentes fases, mas em todas elas com um impressionante apoio das mulheres, e isso me fortaleceu”, conta.

Gabriela Rondon, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero,  destaca que o tipo de preconceito que aflige as parlamentares tem a mesma matriz daquele que atinge o conjunto das mulheres.

Ela enfatiza, no entanto, que a posição de evidência ocupada por essas mulheres tende a movimentar ainda mais a engrenagem do machismo.

“Elas sofrem uma centralização desse preconceito inclusive por terem que assumir posturas que, classicamente, não são consideradas femininas, posturas assertivas, de tomar decisões e propor soluções”, analisa.

Para a pesquisadora, a baixa representatividade feminina no parlamento seria também um elemento relacionado às constantes opressões.  Apesar de corresponderem a mais de 50% da população brasileira, elas ocupam menos de 10% das vagas no Congresso Nacional.

“Tem muitos fatores que levam a essa sub-representação e ao fato de que as próprias mulheres não se reconhecem no espaço da politica porque ele é um espaço muito masculinizado e onde não se criam as condições pra que as mulheres estejam”, aponta.

Diante da árida caminhada dentro do parlamento, Maria do Rosário acredita que o único caminho possível para a construção de uma primavera feminista é o de seguir na resistência política, fazendo frente ao machismo para lutar pela dignidade das mulheres.

“Isso é a única coisa que me faz, num ambiente hostil às mulheres, seguir lutando pra que nós não venhamos a desaparecer deste espaço, pra que nossa voz, nossos corpos, nosso modo de ser e nossas prioridades não desapareçam”, finalizam.

Deixe o seu comentário